sexta-feira, 10 de junho de 2011

página 38 = Martim

Martim
Nasceu: era um varão ! Com febre ansiosa
A riscar seu futuro eis que me ponho.
Grandezas e grandezas sobreponho
E minha´alma não para, ambiciosa !
Gênio insigne, consciência luminosa
Santo, poetas, herói ! ... Manso risonho
Mal enche o berço ... mas como eu sonho
Enche de luz a vida tenebrosa.
Veio a morte e levou- mo! Altas montanhas
Como invejei os musgos de veludo
Dos versos cumes solitários, calmos !
Títulos, honras, glórias e façanhas
Tudo quanto eu sonhava, coube tudo
num caixãozinho branco de 02 palmos!

Não sei o autor.
Vou contar algo mais. Eu já era nascida mas de nada disso me lembro. Só recordo pois minha mãe contava e recontava este fato marcante para ela e para meu pai. Ela estava grávida e com sete meses de gravidez. Estavam construindo uma casa e ela cismou de mexer nuns tijolos. De lá uma lagartixa pulou em cima dela e ela levou um grande susto. Era um dia de domingo. Acalmou-se e tudo parecia correr bem mas, ela sentiu que a criança em seu ventre também havia pulado. Segunda-feira, dia de trabalho. Meu pai acordava cedo e saia cedo. Tudo bem. A noite não havia ido embora e o dia não havia nascido. Só sei o resto da história pois ela falava que havia mandado chamar meu pai no ttrabalho pois ela havia abortado uma criança. Uma menina. Esta foi colocada dentro de uma caixa de sapatos. Embrulhadinha em panos. Uma menina morte=a de susto. Meu pai levou-a ao Instituto médico legal. Parece que ela ficou lá para algum estudo, não sei ao certo. Não sei se houve alguma certidão, algum documento comprobatório. Não sei. Só posso imaginar o sofrimento de um pai tendo em seus braços a filha morta. Um tesouro não vivido. Existem coisas que ficam em nossa mente e que hoje em dia geram perguntas sem respostas. Nunca perguntei a ele sobre minha irmã, nunca. Não queria fazê-lo sofrer. Esta poesia foi escolhida pois me fazia lembrar deste momento não vivido por mim mas, um momento tenebroso e para mim em explicações diretas. Acho que minha irmã não teve um caixãozinho branco de 02 palmos, nem enterro. Mistério para mim. Mistério levado para o túmulo de meu pai e minha mãe.
SolCira
2011

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